O ser que não sabe ser!
Sandro, colega de liceu. Pobre colega. Desfalecido de alma, pobre de
espírito. Com uma auto-estima apenas compreensível para os da sua ‘espécie’,
era assim o Sandro. Um rosto inócuo, sedento de compaixão e contagiado pela
tristeza que lhe faleceu a alma. Era tudo num só ser, que pela mágoa do tempo
deixou de saber ser.
Para sorrir Sandro precisava de pessoas, quem o ajudasse a mostrar o que de
melhor tinha, boa disposição e alegria. Sandro era triste. Sim. Não porque o
queria assim, não porque não sabia sorrir. Simplesmente porque não o conseguia
fazer sozinho. A tristeza tomara conta de si. Precisava de quem
disponibilizasse a resgatar o que havia de mais precioso no seu interior. A
alegria. Estava presa no calabouço da sua contenda.
Enquanto esse alguém não chega. Sandro não fala. Resguarda-se num silêncio
ensurdecedor e terrível. Caminha só e fechado. Por mais que o abordem não
esbugalha os olhos, não mostra interesse. Não levanta a cabeça, não estrebucha.
Só a luta que travava incessantemente com o seu interior interessava. Sandro
lutava. Lutava para ser feliz, lutava por encontrar alguém que o ajudasse a
sorrir e raiar como raios luminosos.
Esse alguém tardava em chegar. Enquanto isso, continuava o Sandro na sua
triste rotina, onde a melancolia pesava. Caminhava triste e só sob as flores do
jardim da sua tristeza. Como o estuque que cai sob o chão de madeira fria, era
assim o Sandro. Pouco faltava para começar a odiar-se, e para que a luta que
travava com o seu interior conhecesse outros propósitos. Aí, seria o fim. Seria
o seu fim. O fim de um ser que não sabe ser.
Hoje chove. Chove cá, chove lá, simplesmente chove. É tudo água que cai das
nuvens. Dentro e fora do Sandro é tudo assim. Ele queria ser também a chuva,
para desaguar numa estreita vala, ou então, para acumular e formar um repugnante
pântano. Queria ele ser tanto, mas no fundo será um nada no meio de tanta
debandada. Queria a beleza e o aroma de uma flor, o brilho cintilante das
estrelas, e a magia do tempo. Mas Sandro era isso e muito mais. Sandro era o
Príncipe de um alguém que tardava em chegar. Lá fora, cai esperança em forma de
chuva. Cá dentro, morre a esperança em forma de gente.
O amor cura tudo, diz quem sabe. Tudo. Mas não isto. Não este agoiro
permanente que abala o interior deste pobre rapaz. É um vazio em forma de
gente. Foi espremido até a exaustão pela solidão que teima em mata-lo
lentamente. Com o tempo, que não é tempo, porque na sua vida o tempo não passa.
Simplesmente não existe. Ele foi perdendo a pouca fantasia que ainda lhe restava,
perdeu até a alegria que habitava no seu interior, e que aguardava apenas o resgate
de um outro alguém. Viver, passou a deixar de fazer sentido para este ser. Tudo
porque a solidão espremia, espremia, e era demais para uma alma só.
Resistiu até onde podia. Esticou em demasia a corda até que ela roeu. O
Sandro faleceu. Partiu tal qual como viveu, triste e só. Acabou por nunca
conseguir impor o rigor necessário ao seu interior. Partiu sem nunca saborear a
maior fantasia humana. O Amor. Mas a sua maior mágoa e a de quem o viu viver
nas masmorras do sofrimento, foi nunca ter conseguido sorrir. Pobre Sandro. O
ser que nunca soube ser. O Sandro perdeu um alguém que nunca chegou, e o mundo
perdeu um Sandro que nunca brilhou.
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